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Mais do que oferecer uma programação musical diferenciada, a Rádio Continental precisava deixar explícita a sua ideologia. Com a rádio, o diretor Fernando Westphalen tinha entre seus principais objetivos atrair a audiência dos jovens engajados politicamente e mostrar a quem estava alienado que havia uma ditadura no país. E esta ditadura precisava ser desmascarada e combatida.

É criado, então, o Departamento de Jornais Falados da Rádio Continental. O noticiário 1120 é Notícia estreou na programação da Continental no dia 2 de maio de 1972, uma terça-feira. Além de cumprir a lei que obrigava as emissoras de rádio a dedicar 5% da programação para o jornalismo – três minutos a cada hora -, o 1120 é Notícia serviu, e muito, para a Rádio Continental mostrar explicitamente a finalidade para a qual tinha sido criada.

Quinze edições diárias com textos irônicos, debochados, com as gírias dos magrinhos e, de preferência, cutucando a ditadura militar iam ao ar de hora em hora a partir das 7h57min. A última edição era às 23h57min. Como a censura era cada vez mais rígida e impedia críticas diretas à ditadura brasileira, a solução foi atacar outros ditadores, como o chileno Augusto Pinochet, um dos alvos preferidos da turma. O presidente americano Richard Nixon e a guerra no Vietnã também sofriam bombardeio. Para os lados da África sobrava, e com toda razão, para Idi Amin Dada, de Uganda.

Cada noticiário reunia entre cinco a seis notícias, uma ligada à outra, em um texto de aproximadamente 28 linhas. A determinação era escrever o noticiário como se o redator estivesse conversando com o ouvinte e dentro do espírito de que um assunto puxa o outro. O trabalho do redator não se encerrava na máquina de escrever. Com o texto na mão, ele falava com o locutor do horário para dar as dicas de como deveria ser feita a leitura. Um pouco de malícia ali, um trejeito aqui... Na única foto da redação da Continental, aparece Clóvis Heberle, em torno de 1972/1973. A imagem pode ser vista ampliada na seção Documentos e Fotos.