Às 18h do dia 4 de maio de 1970, estréia no rádio gaúcho uma voz esganiçada, um ser enlouquecido, gritando freneticamente, uma metralhadora giratória: era Antônio Carlos Contursi, o Bier Boy.

CascalhoÉ claro que todo mundo faz a comparação com o Big Boy, da Rádio Mundial. Mas aos poucos Cascalho mostrou que tinha personalidade e sabia chegar na juventude, ou a magrinhagem de Porto Alegre. Debochado, em meio a muita música disco, criou e difundiu gírias como “magrinho”, “tric tric rolimã” e “tudo blém”. No começo, os amigos duvidavam que ele chegasse frente ao microfone e dissesse aquelas gírias. Rolimã era como os magrinhos se referiam às “boletas”. A dúvida era encarada como um desafio. E Cascalho não queria nem saber. Ia lá e falava mesmo. Uma revolução no rádio gaúcho. Um estranho no ninho no meio da programação popular da Continental. O ano de 1970 termina muito bem para ele.

As coisas andam bem até fevereiro de 1971, quando vê “uns caras estranhos lá nos corredores da rádio”. “Esses caras vão assumir”, foi o comentário no corredor. Agora que tudo ia tão bem. O que aconteceria com o programa dele?

Dois ou três dias depois, Cascalho é chamado pelos diretores.
- Nós somos agora os novos diretores da rádio e queremos avisar que tu e o Clóvis Dias Costa são os únicos que vão ficar na programação. O resto tudo nós vamos limpar – anuncia Judeu.
“Foi como se tivesse chegado ao paraíso, né. Pô, era tudo o que eu queria.”

Cascalho tocava muita black music, como James Brown, The Supremes, Diana Ross, The Four Tops, Jackson Five. Ou então bandas como Rolling Stones. Raramente um hard rock. Tudo o que as outras emissoras não tocavam. E ele mesmo batalhava os discos. Mesmo que fosse preciso importá-los. E com isto fazia muito sucesso.

A primeira abertura do Cascalho Time dizia: “Invadindo o éter de Porto Alegre. A hora da grilação. Bier Shooooow. Com Antônio Carlos Contursi, o Cascalho. Mil transas, mil coisas, mil melodias. Antônio Carloooooooos.”

Te liga porque a nave já vai zarpar

Em 1974, Cascalho passa a contar com a produção do músico Hermes Aquino, que se destacava por compor jingles que caíam no agrado do público. Ele dá uma mão a Cascalho nas músicas e nos textos do programa. E não demora para fazer mais uma de suas composições de poucos segundos que se tornaram memoráveis. É a abertura do Cascalho Time.

“Te liga porque a nave já vai zarpar
Cascalho Time está no ar
Você vai sorrir
Vai ficar legal
Das 18 às 19 na Continental”
E emendava o nome do patrocinador.

Simples, direto e arrebatador. “Sorrir e ficar legal” era com o Cascalho mesmo. Após três décadas, a vinheta de abertura do programa é uma das peças mais lembradas dos ex-ouvintes da Continental.