Fim de tarde em um dos últimos dias de março de 1975. Redação da Folha da Manhã no centro de Porto Alegre. Uma brincadeira é armada para recepcionar o repórter Omar Luiz de Barros Filho, o Matico. Ele vinha de férias no Rio, onde ficara amigo de Jorge Mautner, de quem não parava de falar. Arthur Monteiro lança uma idéia para o colega da mesa em frente, Paulo de Tarso Riccordi, que imediatamente a aprova e ajuda a colocar em prática. Os dois redigem um telex – como se tivesse sido enviado por uma agência de notícias - sobre a morte de Mautner em um acidente de carro na estrada Rio-Santos. Mas Matico não vai trabalhar. E o que fazer com aquela peça tão bem armada? Os dois decidem não desperdiçar o tempo investido na brincadeira. Começam a mostrar a “notícia” para os colegas. Um clima de comoção começa a tomar conta da redação.

Wladymir Ungaretti, coordenador de jornalismo da Rádio Continental, costuma passar nos fins de tarde pela redação do jornal da Caldas Júnior para saber das últimas. A Folha da Manhã fica a pouco mais de cem metros da Continental, que funciona no quinto andar da Andradas, 1155, o conhecido “Edifício do Relógio”. Ungaretti entra na redação da Folha da Manhã e ouve a notícia de algum dos jornalistas: “Olha parece que o Mautner morreu num acidente de automóvel na Rio-Santos. Inclusive tem um pessoal fazendo um caderno especial sobre isso.”

Ungaretti se aproxima do grupo que estaria fazendo o tal caderno. O “teletipo” é mostrado para Ungaretti. Lá está com todas as letras: “Atenção. Urgente. O cantor Jorge Mautner morreu hoje à tarde na Rodovia Rio-Santos após colidir o seu carro com um caminhão a 120 quilômetros por hora. Outras circunstâncias do acidente ainda não são conhecidas.”

Ungaretti sai correndo em direção à rádio e manda botar a notícia no ar. Naquela noite, Porto alegre inteira chorou a morte do poeta maldito.