Começa o jornalismo

Mais do que oferecer uma programação musical diferenciada, a ideologia da Continental precisava se mostrar mais explícita. Com a rádio, Fernando Westphalen tinha entre seus principais objetivos atrair a audiência dos jovens engajados politicamente e mostrar aos alienados que havia uma ditadura no país. E esta ditadura precisava ser desmascarada e combatida.

É criado, então, o Departamento de Jornais Falados da Rádio Continental. O noticiário 1120 é Notícia estreou na programação da Continental no dia 2 de maio de 1972, uma terça-feira. O 1120 é Notícia mostrou explicitamente a finalidade para a qual tinha sido criada a Continental: incomodar a ditadura.

Verissimo dá o rumo

No final de abril de 1972, um dos programadores musicais da 1120, Nelson Matzenbacher Ferrão, conhecido desde criança como Mola, convida João Carlos Ferreira da Silva, o Joca, colega na Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS), para uma vaga na redação que estava sendo criada na Rádio Continental. Joca não quis, pois estava indo para a Folha da Manhã, na época o sonho de consumo dos jovens jornalistas. Joca avisa o primo Luis Fernando Valls da vaga na Continental.

Valls tinha saído da cadeia há dois meses, onde havia cumprido uma temporada de meio ano por causa de sua militância no proscrito Partido Operário Comunista, o POC. Ele corre ao Paulo Totti, amigo e então chefe da sucursal da Veja em Porto Alegre, para que o indicasse a Fernando Westphalen. “A indicação é prontamente aceita. Eu até perguntei se havia algum teste, mas o Fernando me disse que a indicação do Totti era suficiente.” Valls lembra que, dadas as circunstâncias, o salário de Cr$ 500 até poderia ser considerado satisfatório (TEM CÓPIA DA CARTEIRA DE TRABALHO). O salário mínimo em vigor naquele mês de maio de 1972 era de R$ 268,80.

Além de Molla e Valls, formam a equipe Sérgio Becker, Sérgio Quintana e o músico Santana. Eles fazem o programa-piloto na manhã do feriado de 1º de maio de 1972. O laboratório foi feito em cima de um texto do Luis Fernando Veríssimo, que deu as idéias de como deveria ser a linguagem do noticiário da Continental. Uma notícia encadeada na outra. Como dizia Judeu, era preciso levar notícia para quem não se interessava por notícia.